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Out 08

Nota: Crítica publicada no Red Carpet. Revista e Forúm.

 

Bob Dylan é um mito da música popular americana. Apesar de o conhecer desde sempre, confesso que apenas comecei a ouvir a sua música com maior atenção há pouco mais de quatro ou cinco anos. Fiquei imediatamente apaixonado pela sonoridade e, principalmente, pelas letras das músicas, que mais pareciam obras poéticas, com fortes mensagens de protesto. Dylan escreve como poucos no mundo da música. Temas como filosofia, politica e principalmente consciência social, são recorrentes nas letras das suas músicas. Outra característica bem conhecida de Dylan, é o facto de ter passado por fases bastante distintas ao longo da sua vida, sendo que, em cada uma dessas fases, a sua forma de ser e agir mudava tanto que por vezes nem parecia ser a mesma pessoa.

A inconstância existencial de Dylan talvez seja a razão pela qual o realizador Todd Haynes resolveu ter uma abordagem totalmente diferente do que estamos habituados nos “biopics” que temos visto nos últimos tempos. Seis actores foram escolhidos para interpretar personagens que representam Dylan, mas que nem sequer têm o seu nome. Esta escolha, apesar de arriscada, foi a mais acertada pois seria complicado, a apenas um actor, retratar alguém tão complexo e mutável. Ben Whishaw, Christian Bale, Richard Gere, Marcus Carl Franklin, Heath Ledger e Cate Blanchett foram os actores escolhidos para representar as várias fases (ou personalidades) de Dylan. Os segmentos, de cada uma destas personagens, não são contados em separado, as histórias vão-se cruzando e sendo contadas alternadamente ao longo do filme. Esta foi uma opção que, na minha opinião, foi muito bem pensada e conseguida, pois reflecte que as fases, pelas quais Dylan passou ao longo da sua vida, também não foram blocos isolados e separados no tempo.

Sendo este um filme biográfico de um cantor, era inevitável que a música desempenhasse um papel fundamental no filme, sendo, em certas partes, quase que um protagonista do mesmo. Grande parte dos êxitos, que fizeram de Dylan o mito que é, estão aqui presentes. Músicas como "Like a Rolling Stone", "The Times They Are A-Changin'”, "Just like a Woman" e “I'm Not There" são reproduzidas no filme, umas vezes na voz de Dylan, outras nos actores que o interpretam. A ligação entre imagem, música e os diálogos é por vezes tão perfeita e poética que é impossível não nos sentirmos deslumbrados com o que se vai passando diante dos nossos olhos.

Não é de admirar que Todd Haynes tenha obtido o consentimento de Dylan (muitos já tinha tentado obter essa aprovação, mas a resposta foi sempre negativa) para fazer um filme sobre ele. Dylan deve ter visto em Haynes a pessoa ideal para fazer jus à sua vida. Todd Haynes faz um trabalho irrepreensível a todos os níveis. Desde o argumento inovador, escrito pelo próprio, passando pela escolha dos actores e a cinematografia (que alterna entre o preto e branco e a cor), tudo parece estar reunido de forma perfeita.

Com tantos protagonistas, é difícil escolher um nome que se destaque dos restantes. Talvez Cate Blanchett, por ser uma mulher num papel de um homem, e por ser (incrivelmente) a que dá vida à personagem mais parecida, em termos físicos, com Dylan. Este é um elenco repleto de estrelas e de bons actores, sendo que é de destacar que até as personagens mais secundárias (neste caso todos os “não-Dylan”) estiveram muito bem.

Este é um filme enigmático, complexo e poético, tal como a figura que representa. A forma como a história de Dylan é contada é pouca ortodoxa, intensa e bastante alucinante, quase como se de uma letra de uma das suas músicas se tratasse. É, em suma, um filme refrescante, que traz uma lufada de ar fresco ao género, devendo ser visto por quem gosta, ou quer conhecer, Bob Dylan, mas principalmente pela originalidade que apresenta.

 

 

publicado por Luís Costa às 00:24

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