08
Abr 09

 
Ao pesquisar por informação sobre Noite e Nevoeiro (antes de o ver) descobri que existem várias escolas (principalmente motivadas pelos professores de história) nos EUA que exibiam esta obra. Sabia que era um documentário francês de trinta e poucos minutos, realizado por Alain Resnais, e o tema era o Holocausto. Pensei para mim se valeria a pena ver mais um filme baseado num dos períodos mais negros da história da humanidade, é que este é um tema recorrente no cinema – todos os anos. O facto de ser curto e estar na Colecção Criterion chamou-me a atenção. O facto de ser exibido em escolas e de ter lido excelentes críticas fez-me vê-lo de imediato.
 
Fiquei extremamente impressionado. Não me lembro de ter visto imagens tão chocantes, nem em documentários, nem em filmes sobre o tema. E digo mais, nem em filmes de terror dos mais violentes que vi, observei tamanha violência. É chocante como a realidade consegue superar a ficção.
 
O filme não nos traz nada de novo em termos de informação mas faz-nos pensar. Faz-nos pensar em como pôde algo deste género ter acontecido. Como é possível que a humanidade tenha executado estes actos tão vis e absurdos? Como pôde um país inteiro cegar pelo ódio às minorias? E depois, o filme ainda nos deixa a reflectir, caso não tenhamos o cuidado necessário, caso não tenhamos estes acontecimentos em mente, tudo pode voltar a acontecer. Nós tentamos esquecer, tentamos pensar que está tudo bem, e é por isso que ver um filme destes se torna obrigatório, para não adormecermos encostados à monótona e repetitiva rotina do dia-a-dia.
François Truffaut disse que este era o melhor filme de todos os tempos. Não sei se posso concordar com isso, mas certamente é um dos mais importantes.
 
 
 
PS2: Podem ver o filme aqui.

 

publicado por Luís Costa às 17:58

31
Mar 09
 
Notorious é um filme nada infame de Hitchcock. É verdade que não é tão célebre como outras obras do mestre, mas é um dos seus melhores filmes. Para começar, conta com duas das maiores estrelas de sempre do cinema (na altura estavam no pico da sua forma), Cary Grant e Ingrid Bergman. Eram ambos grandes no que faziam e entregam-nos dois excelentes desempenhos.
 
A acção decorre, como Hitchcock fez questão de nos mostrar logo no inicio, um ano e pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Começa com um traidor de origem alemã, mas nacionalidade americana, a ser julgado a 20 anos de cadeia por ter colaborado com os nazis. Este traidor tem uma filha, Alicia Huberman (Bergman), uma pessoa de carácter duvidoso (daí o nome do filme), que gosta de beber e seduzir vários homens com os seus encantos. É na sua personalidade infame que todo o filme se baseia e cria toda a sua tensão.
 
Na noite seguinte ao julgamento, Alicia conhece Devlin (Grant) um agente dos EUA que a seduz com o intuito de convence-la a fazer um trabalho de espiã no Brasil. Com alguma relutância, Alicia acaba por aceitar o desafio como forma de redenção pelos pecados do pai. A tarefa que Alicia tem que desempenhar é seduzir um antigo amigo do seu pai, de forma a obter informação sobre a agenda dos nazis no Brasil. Como seria de esperar, Alicia e Devlin acabam por se apaixonar e irão encontrar vários desafios ao seu amor pelo caminho, criados principalmente pelo trabalho que Alicia tem em mãos.
 
Devlin é um homem céptico e pragmático, que tem medo de dar asas a um amor por uma mulher sobre a qual tem dúvidas. Os seus sentimentos por Alicia são óbvios durante todo o filme, mas é ainda mais óbvio que ele se está a resguardar com medo de sair magoado desta relação. É esta descrença que torna este filme extremamente interessante, pois coloca a protagonista em dificuldades que quase a levam à morte.
 
Outro aspecto que eleva este filme é a forma como foi filmado. Hitchcock tem aqui um dos seus melhores trabalhos a nível técnico. Cada plano é executado de forma bastante original e irrepreensível. Como exemplo desta perfeição está a cena em que Alicia acorda ressacada na manhã seguinte a conhecer Devlin. Existem planos nesta cena que não são comuns na maioria dos filmes, principalmente devido ao seu enquadramento.
 
É incrível como é impossível não gostar de um filme de Hitchcock, não é por nada que lhe chamam o mestre. Para além do espectacular trabalho feito a nível técnico, Hitchcock cria uma história de espiões tensa e original que tem por base uma história de amor muito pouco convencional. É assim mais um dos filmes do mestre que recomendo vivamente.
 

 

 

PS: COLECÇÃO CRITERION: 137


26
Mar 09

Bottle Rocket (1996)

 

O primeiro filme de Wes Anderson (e dos irmãos Wilson) é uma obra curiosa e diferente sobre um grupo de amigos que, apesar de não terem o menor jeito para o crime, pretendem levar a cabo um golpe que supostamente os faria viver tranquilamente até ao fim das suas vidas.
São já notórias algumas das marcas de Anderson, como o humor estranho, as personagens alienadas e invulgares, e as situações altamente rebuscadas que vão acontecendo um pouco por todo o filme.
Não é o seu melhor filme mas é divertido e vê-se muito bem.

Le Samouraï (1967)

 
Jean-Pierre Melville consegue com este filme fazer uma das melhores obras sobre assassinos contratados. É uma homenagem aos anos de ouro do film-noir e uma pérola cinematográfica que inspirou muitos realizadores (como John Woo e Jim Jarmusch). A história é simples e decorre a um ritmo pautado mas cheio de tensão. Não é um filme recheado de cenas de acção mas agarra-nos logo nos primeiros dez minutos (em que não existe uma única fala). Minimalista mas poderoso em termos estilísticos e estéticos, é uma obra que ou se ama ou se detesta. Acrescentando a isto a interpretação natural e contida de Alain Delon, temos aqui uma obra obra-prima sublime e memorável.   
 

 

publicado por Luís Costa às 19:32

04
Mar 09

 
Mais um filme visto da colecção. Andava há algum tempo para vê-lo e aproveitei para faze-lo nas férias que tive no fim do mês passado. Este é o filme que catapultou Spike Lee para a fama e é, até hoje, a sua melhor obra.
 
Do the Right Thing é um filme sobre a tensão social presente num bairro norte-americano. A história desenrola-se apenas ao longo de um escaldante dia de verão e consegue demonstrar-nos de uma forma clara o que o realizador pensa sobre o racismo e a violência.
 
Levantando várias perguntas, como por exemplo se Mookie (interpretado pelo próprio Lee) tinha "feito a coisa certa" ao incitar o motim contra o restaurante em que trabalhava, este é um filme óptimo para nos fazer reflectir sobre a razão e origem do racismo e de como por vezes se iniciam conflitos estúpidos e sem sentido por razões ainda mais estúpidas e sem sentido.
publicado por Luís Costa às 12:54

13
Fev 09

 
Nos últimos quatro anos, David Cronenberg fez dois filmes (A History of Violence e Eastern Promisses) que foram, tanto a nível crítico, como a nível de bilheteira, grandes sucessos. O mesmo não se pode dizer do resto da sua obra que, apesar de ter um grupo de fãs incondicional, nunca conseguiu ser unânime. Isso deve-se ao facto do realizador canadiano ser bastante original e visceral nas suas obras, muitas vezes chocantes, o que poderá ter afastado um público mais sensível. Ao longo dos anos, Cronenberg foi enriquecendo a sua filmografia com obras que eram principalmente de terror, sendo caracterizadas por uma relação estrita entre o psicológico e o físico. Videodrome é uma dessas obras e um dos filmes de culto que catapultou Cronenberg para a fama.
 
Videodrome conta-nos a história de Max Renn (James Woods), um director de um canal por cabo (Civil Tv), e da sua entrada num mundo de alucinações e conspiração. Tudo começa com a captação de uma difusão de um canal que transmitia um programa snuff, onde as pessoas eram torturadas numa sala. O Civil Tv era conhecido pela sua programação repleta de sexo e violência e Max achou que um tipo de programa destes tinha audiência garantida no seu canal. Decidiu então investigar. Ao faze-lo acabou por descobrir um tipo de transmissão, de nome videodrome, que causava alucinações e servia de certa forma para controlar as pessoas.
 
Cronenberg baseou-se muito na obra de Marshall McLuhan, um filósofo canadiano que dedicou grande parte do seu trabalho à teoria dos media e a sua influência na sociedade. Refiro este facto apenas para compreendermos que este não é um simples filme de terror. Cronenberg inseriu muitos dos conceitos deste filósofo no filme e apesar de nem sempre serem claros e de podermos não os compreender, sabemos que eles estão lá.
 
Mas a mais-valia do filme está no facto deste não viver apenas desses conceitos e teorias. Esta é uma obra que vale por si só. E isto acontece pois Cronenberg faz um excelente trabalho em criar uma atmosfera tensa e surrealista, associada a uma história onde abundam conspirações e reviravoltas que nos deixam assombrados. O que também nos deixa bastante atónitos são os efeitos especiais usados para dar azo à imaginação incrível, e por vezes repugnante, de Cronenberg.
 
A dar corpo, literalmente, a esses efeitos está James Woods. Este era um papel bastante complicado de interpretar com autenticidade, mas Woods faz um excelente trabalho na composição da sua personagem. Deborah Harry, a vocalista da banda punk rock Blondie, faz o papel do interesse amoroso do protagonista e, ao contrário do que seria de esperar, também se safa muito bem no seu papel.
 
Isto pode soar a chavão, mas Videodrome não é um filme para toda a gente. É uma obra que tem momentos em que não sabemos muito bem o que está a acontecer e o facto de ser muito gráfico e surrealista irá, como já disse anteriormente, afastar algumas pessoas. Mas para quem está familiarizado com a obra de Cronenberg ou quer descobrir um realizador com um estilo muito próprio e subversivo, então esta é uma excelente oportunidade de o fazer.
 

 

Nota: Mais uma adição, a 24º, aos filmes vistos da Colecção Criterion.

 

 


10
Fev 09
 
Samuel Fuller é um dos grandes realizadores Norte-americanos. Apesar de não ser tão reconhecido como alguns dos seus conterrâneos foi um realizador que nunca se sentiu inibido em fazer filmes sobre os mais variados e polémicos temas. Durante a sua carreira realizou vinte e três filmes, que se distinguiam pelos seus baixos orçamentos, personagens marginalizadas e forte consciência social. A sua carreira influenciou realizadores da Nouvelle Vague francesa como Jean-Luc Godard e outros grandes realizadores americanos como Martin Scorsese, Quentin Tarantino e Jim Jarmusch.
 
Apesar da riqueza da sua obra, quando White Dog foi lançado em 1982 foi atacado por grande parte da crítica americana, acabando por ser retirado das salas de cinema pela Paramount Pictures. As críticas incidiam sobre o facto de o filme ser racista. Vinte e sete anos depois disto acontecer, vejo o filme e pergunto: mas como é possível alguém considerar este um filme racista?
 
A premissa do filme é bastante simples. Uma jovem actriz atropela um cão e sentindo-se culpada acaba por ficar com ele. O cão já não era jovem e acabaria por revelar-se um cão de ataque, que tinha sido treinado especialmente para atacar pessoas negras. A jovem rapariga afeiçoa-se ao animal e apesar de alguns ataques perpetuados pelo cão ela não o quer abater, levando-o a um treinador negro para o desprogramar.
 
Através do parágrafo anterior dá para notar que a intenção de Fuller foi fazer um paralelismo entre o racismo incutido no cão e o racismo que existia na sociedade americana (e no mundo). O racismo do cão devia-se ao facto de ter sido treinado desde pequeno a primeiro temer e depois odiar negros. Este racismo era algo irracional no cão, um sentimento que se devia à educação que este tivera e à reacção defensiva que este tinha desenvolvido. A grande questão que o filme levanta é se este medo irracional de algo diferente e o ódio que dele resulta pode ou não ser curado.
 
As pessoas racistas estão personificadas no cão e as questões colocadas no filme servem exactamente para reflectirmos se é ou não possível acabar com o racismo na nossa sociedade. O fim do filme é algo ambíguo a responder a essa questão. Se por um lado o cão acabar por aceitar o treinador, que é da cor que ele tanto odeia, por outro lado acaba por ficar num estado em que é impossível saber quem ele atacará a seguir. Penso que o objectivo de Fuller também não era responder à questão, mas sim levanta-la de modo a pensarmos nela e a discutirmos, portanto a forma como conta a história serve o seu propósito.
 
Deixando o assunto do filme e focando mais os aspectos técnicos do mesmo, é impossível ver este filme e não realçar três aspectos. O primeiro é o facto deste filme ser realizado por quem sabe o que está a fazer, desde os planos à tensão criada ao longo do filme constata-se que Fuller domina a sua arte. O segundo aspecto é algo que eleva qualitativamente o filme: a banda sonora é composta por Ennio Morricone, e não é preciso dizer mais nada pois o nome fala por si. Por fim, algo que não abona muito a favor do filme e é sem dúvida o seu calcanhar de Aquiles: as interpretações. Com excepção de Paul Winfield (o treinador), os actores roçam quase o amadorismo. É uma pena não terem conseguido arranjar alguém melhor que Kristy McNichol (a rapariga que encontra o cão) para protagonista, já que a sua interpretação é sofrível ao longo de todo o filme (o que é mais irónico e algo caricato nisso é que ela interpreta uma actriz que está com dificuldades para arranjar trabalho).
 
White Dog é, sem a menor dúvida, um filme que, apesar de ter nas interpretações o seu ponto fraco, deve ser visto. É uma história com bom ritmo, intensa e principalmente faz-nos pensar na origem do racismo e na relação entre raças. Não se compreende assim como foi possível este filme ter sido proibido nos Estados Unidos nos anos 80.

 

Nota: E cá está a primeira entrada da "Colecção Criterion". Acho que comecei bem. Foi um bom filme. Espero que continuem a sair-me pérolas destas. :)


03
Fev 09

Sempre gostei de listas. E de colecções também (muito porque ia fazendo uma lista do que tinha). Gosto, por exemplo, de ter um certo número de filmes para ver e os ir “eliminando” com o passar do tempo. Podem ser filmes do mesmo realizador, actor, país ou então uma lista dos melhores de um determinado género ou ano. Estas listas ajudam-me não só a descobrir filmes que desconhecia como também a fazer uma escolha mais rápida quando pretendo ver um filme.
 
Motivado pelo blog The Criterion Contraption, vou escolher uma lista e tentar ver todos os filmes que constam nela. O que o autor deste blog se propôs a fazer foi exactamente isso, tento como base todos os filmes que saíram em dvd na colecção da Criterion. A diferença vai ser que enquanto este autor se propôs a fazer análises (exaustivas) a todos os filmes que ia vendo, eu não me vou comprometer a tal tarefa. Não tenho a capacidade nem o tempo para empreender numa empreitada herculeana como esta. Vou somente registar os filmes que vou vendo e de vez em quando farei uma crítica.
 
A lista é composta por 469 filmes e uma das razões pelas quais a escolhi foi pela diversidade apresentada. É composta por filmes de diversos países, géneros e décadas.
 
Lista de filmes vistos:
# Título Realizador Ano
002 Seven Samurai Akira Kurosawa  1954
003 The Lady Vanishes Alfred Hitchcock  1938
008 The Killer John Woo  1989
013 The Silence of the Lambs Jonathan Demme  1991
023 RoboCop Paul Verhoeven  1987
040 Armageddon Michael Bay  1998
052 Yojimbo Akira Kurosawa  1961
061 Monty Python's Life of Brian Terry Jones  1979
064 The Third Man Carol Reed  1949
070 The Last Temptation of Christ Martin Scorsese  1988
075 Chasing Amy Kevin Smith  1997
097 Do The Right Thing Spike Lee  1989
101 Cries and Whispers Ingmar Bergman  1972
108 The Rock Michael Bay  1993
137 Notorious Alfred Hitchcock  1946
138 Rashômon Akira Kurosawa  1950
139 Wild Strawberries Ingmar Bergman  1957
147 In the Mood for Love Wong Kar-Wai  2000
151 Traffic Steven Soderbergh  2000
157 The Royal Tenenbaums Wes Anderson  2001
174 Band à Part  Jean-Luc Godard  1964
176 The Killers Robert Siodmak  1946
182 Straw Dogs Sam Peckinpah  1971
248 Videodrome David Cronenberg  1983
300 The Life Aquatic with Steve Zissou Wes Anderson  2004
306 Le Samouraï Jean-Pierre Melville  1967
450 Bottle Rocket Wes Anderson  1996
455 White Dog
Sam Fuller  1982
469 In the Realm of the Senses
Nagisa Oshima  1976

 Nota: Links - Filmes com Críticas. Negrito - Último Visto

 

!!!! Wish Me Luck !!!! 

 

publicado por Luís Costa às 18:41

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